O que te enche o coração

25.9.13
GUEST POST 



Post by As Maravilhas da Maternidade AKA Maria de Lurdes :)



Eu não sou a pessoa ideal para uma introspecção sentida e um texto inspirador ou arrebatador. Talvez seja demasiado cínica, ou demasiado pragmática, ou me falte o verbo, ou o que me (co)move não corresponda ao que (co)move os outros. Eu detesto lamechice, reviro os olhos a textos arrebatadores e piegas, não tenho pachorra para inspirational speeches, sou mais pela punchline e pela pragmática.
Mas um guest post de reflexão a pedido da Magda, nunca seria com as velas viradas à lamechice, seria virado à profundidade, ao saber de prática e experiência feito, a mexer um pouco no que nos vai cá dentro, sem filtros e arabescos.


Posto isto, vamos a uma introspecção - Do céu para a terra. À ideia de felicidade suprema, vejo-a mais como algo conceptual, algo perfeito, e portanto, inatingível. A “felicidade” seria ter a família sempre em paz, com saúde, um trabalho 100% satisfatório, marido amantíssimo com disponibilidade de tempo, muito tempo para viajar para sítios fantásticos, ler e estar com quem gosto, ganhar o euromilhões e fazer apenas o que me apetece, não levar qualquer crap de pessoas que não me agradam, um walking closet de estrela, horas de spa por semana. Mas isso nunca irá acontecer. Pelo menos nunca tudo junto ou ao mesmo tempo. Há uma máxima que eu adoro e que é um óptimo alívio para a alma – tu podes ter tudo, mas não ao mesmo tempo. Por isso, ser num dado momento feliz em todos os quadrantes é uma utopia, há sempre alguma coisa que falta. E nunca é constante.
De facto, a felicidade para mim é o somatório dos momentos de felicidade conscientes ou inconscientes que vivo ao longo dos anos e que consigo coser na minha memória como uma linda manta de retalhos. Ter imensos retalhos é a minha felicidade suprema. Sinto que sou felizarda na minha vida, sei que as coisas em geral me têm corrido muito bem e que sou feliz. Porque tenho uma manta de retalhos linda, grande e muito colorida, feita de momentos só meus, com o meu amor, com o meu filho, com a família que eu criei, com a que me criou, com os meus amigos, com os meus projectos, com a minha casa, com o lugar e tempo em que nasci.
Ainda há pouco vi ser criado mais um dos meus retalhos. O meu filho apareceu-me na sala, ainda estremunhado da sesta e embrulhou-se nos meus braços, suadinho, a responder às minhas perguntas com um sussurro de ternura. As minhas perguntas eram doces, porque ele tem quase três anos e é todo feito de inocência e marotice, e assim ficámos, num abraço calmo, a conversar docemente. Até aparecer o meu marido e nos apanhar nesse namoro e rirmos mais um pouco e irmos lanchar, simplesmente. Aperceber-me que esse momento tão singelo era um momento de felicidade, perfeitinho, que criei ali mais um retalho para a minha manta, é uma enorme felicidade em si, porque este não me escapou. Ele aconteceu, eu vivi-o bem, eu percebi que era um momento de felicidade e vou sempre lembrá-lo com essas honras. Outros momentos me podem ter escapado, por não me aperceber deles ou por não os ter vivido por um triz, porque o miúdo está mal disposto, ou o marido está a trabalhar, ou simplesmente por não os valorizar como momentos de felicidade. Para outras pessoas pode ser pouco, para outras pode ser isso mesmo. Para mim, são momentos assim, aparentemente pequeninos, que se juntam a momentos grandiosos que nos fazem felizes, ainda que não sejam perfeitos.




Também momentos pequeninos são os que me trazem angústia e infelicidade. Não são apenas as fatalidades, não são apenas as grandes questões, os grandes problemas. São momentos maçadores os que nos moem, os que nos vão lapidando até achegarmos ao fim do dia e pensarmos “Que dia horrível e em que é que o gastei?” É o computador que demora a desenvolver e nos tira tempo e paciência, são as mil coisinhas que temos para fazer, é a papelada acumulada, é o e-mail que não pára de apitar, é o telemóvel salvador-carrasco, é a minha desorganização patética, é o meu filho que não me obedece à primeira, nem à segunda, é o marido que nunca mais chega, é a casa que se desarruma sozinha, é a nortada que me estraga o cabelo mal penteado e os planos longínquos de praia, é os outros a queixarem-se sem fim das mesmas coisas ou de outras que eu considero ainda mais patéticas e eu só penso, “mas se eu não me queixo, tenho que te ouvir a toda a hora porquê? Suck it up!”
Essas pequenas coisas são as que me exasperam, deixam-me mais afectada do que gostaria, e elas verdadeiramente interferem com a minha felicidade. Porque toldam outros momentos, ou fazem com que eles não aconteçam. Um pequeno momento não preenchido de infelicidade, é um momento que se pode preencher de felicidade, necessariamente.
E muitas vezes basta mudar a nossa reacção aos factores externos para sermos mais felizes, para estarmos mais contentes. Eu, por exemplo, não sou uma pessoa paciente, nem resiliente, mas estes são aspectos que tenho tido oportunidade de contrariar com a chegada do meu filho. Haja paciência! E eu lá vou tricotando muita dela. O meu filho e o seu comportamento é o factor externo que mais me mobiliza, que mais me afecta, mas que ao mesmo tempo mais depende de mim para mudar ou moldar. Curiosamente, o facto de eu não ser paciente nem resiliente faz com que eu não tenha uma paciência infinita com o meu filho, faz com que eu não seja demasiado elástica com ele, o que até joga a seu favor. Eu não digo as coisas muitas vezes, ele sabe que se pisa o risco e abusa da minha boa vontade, vai ter consequências certinhas como o destino, ele sabe que a estrutura está lá, e que essa estrutura é dinâmica, mas que não é elástica. A minha falta de paciência é transformada pelo meu filho em estrutura, em firmeza, em “eu sou mais teimosa do que tu, a minha vontade é mais constante e consciente, eu sou a mãe”, apenas porque não estou para prolongar a situação, e fazer-lhe a vontade é prolongar a situação, a médio e longo prazo, não se corta o mal pela raiz.



A parentalidade positiva entra na minha vida para dar um nome à minha mudança de atitude, é o rótulo desta transformação. Parentalidade positiva é criar felicidade pelo nosso comportamento, em família. É algo que tem de ser trabalhado, é algo que tem de estar consciente em nós, que nós temos de apre(e)nder, mas é algo que pode surgir não apenas por filosofia de vida, mas por conveniência, porque é o que na prática nos torna uma família mais feliz, não apenas pela felicidade em si, mas pelo evitar de infelicidade, pela estrutura que gera calma, pela estratégia que substitui o improviso, pela acção em vez da reação, pela segurança, não caos e incerteza. Pode ser gerada por conveniência, e pode ainda surgir pela transformação dos nossos defeitos, ninguém precisa ser bonzinho ou “fofinho” para praticar a parentalidade positiva, basta estar consciente dos seus defeitos ou limitações e tentar moldá-los a favor do que mais desejamos, a calma e a felicidade, e a favor de quem mais amamos, os nossos filhos, a nossa família, a nós próprios. Assim, a impaciência transforma-se em estrutura e limites bem estabelecidos, e nunca chega a ser uma perda de controlo. A preguiça transforma-se em não estarmos sempre disponíveis para todas as vezes que eles queiram fazer a mesma brincadeira connosco, mas lhes proporcionemos momentos de brincadeira a sós no seu espaço, que os ensinemos a estar sozinhos, ou que aprendam a apreciar o silêncio, e nunca chega a ser negligência ou indisponibilidade. A ira transforma-se em saber dizer não, e não é não, e nunca chega a ser um ataque de fúria, ou uma agressão. A avareza ou as carências económicas transformam-se em frugalidade, em qualidade em vez de quantidade, em resistência aos caprichos, deles e nossos, e nunca chega a ser uma frustração ou vergonha. A vaidade e egoísmo transformam-se em fazermos questão de termos momentos apenas para nós, de nos cuidarmos, para que o espelho continue a reflectir uma imagem que nos encoraje, e nunca chegamos a ser narcisistas ou desencantadas. E por aí fora. Todos os nossos defeitos, ou todas aquelas coisas que nos fazem bem humanos e limitados, podem ser acolhidos e viradas do avesso, por forma a serem os activadores de comportamentos que venham a beneficiar a todos.



Vejo e tenho muitos momentos A-ha! com a parentalidade positiva, mas também vejo muitas reacções de “isso é inexequível, isso é tudo muito bonito, mas…”  Eu sou uma pessoa bem limitada, cheia de defeitos e, no entanto, a parentalidade positiva transforma as minhas limitações em mais-valias e eu continuo eu com os meus defeitos, mas virados do avesso pela positiva.

9 comentários:

  1. Obrigada pelo convite, querida Magda, foi um privilégio e enorme orgulho "inaugurar" esta rubrica, fico a aguardar as próximas com expectativa!!

    Beijinhos e obrigada também pela reflexão que me proporcionaste

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  2. Acompanho o blog da Maria e adoro. Adoro o seu estado de graça, a sua doçura e firmeza. O seu texto logo pela manhã soube-me tão bem. Eu, mãe de um filha de 20 meses, seguidora de uma parentalidade positiva que fui e vou aprendendo com a Magda, bebi todas as palavras numa sede de tarde de verão. Sinto necessidade de, com tempo, voltar a reler.
    Obrigada às duas por nos proporcionarem esta partilha.

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  3. Adorei! Obrigada Magda Obrigada Maria de Lurdes! Cada vez que as sigo sinto-me identificada não pelo que sou (ainda tempo muito para apre(e)nder) mas naquilo que quero tornar-me. Acho que vou imprimir este texto para lê-lo várias vezes. Vocês são uma inspiração!

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  4. Adoro quando leio textos magníficos como este e me identifico, me revejo neles no meu dia a dia! Aida Ribeiro

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  5. Que bom ler aqui estas vossas palavras, fico muito feliz por partilharem, por se reverem e por terem lido até o fim :))

    Beijinhos a todas

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  6. Que bem que escreve a ML, estou maravilhada!
    E este texto leva-me a ficar ainda mais ansiosa pelo workshop de sábado.
    Quero conseguir exteriorizar assim, um dia, quem sabe.

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  7. adorei! revejo-me imenso porque tb sou uma pessoa com paciência limitada, mas ler sobre a parentalidade positiva tem-me ajudado muito a rever as minhas acções e a refletir sobre o que estou a pensar fazer (dar vontade imediata) e corrigir na hora para mais tarde nao me arrepender. :)

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  8. Não sabia que o que tento fazer todos os dias em casa e com o meu filhote de 18 meses se chamava parentalidade positive. Adorei a reflexão e revi nela tudo o que, por instinto, me encorajo a fazer diariamente desde que sou mãe e esta forma de estar enche-me o coração de amor para dar e de auto-estima. Ser mãe foi como se o Mundo parasse e vi tudo com mais clareza, é vestir várias camisolas e fazer com que elas nos fiquem bem. Vou-me informar mais sobre o tema e obrigado por partilhar.

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